Um novo ano

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Mais um ano findou e com ele dez meses de aprendizado com um povo tão distinto ao nosso. Acostumei-me a ver pessoas nuas; comecei a usar “pano” como saia; cortei meu cabelo; aprendi (e ainda aprendo) a falar francês; conheci um pouco, de pelo menos, seis novos dialetos (Waama, Ditammari, Fon, Dendi, Peulh, Bariba); comecei a comer com a mão; inevitavelmente aprendi a cozinhar (sem fazer ninguém passar mal) e ainda por cima na fogueira; fiz verdadeiras pioneirias que duram até hoje; matei: ratos, musaranhos, escorpiões, lagartixas gigantes e inúmeros tipos de insetos e besouros antes desconhecidos; caminhei entre matos e terras para fazer uma colheita e encontrar uma área para acampamento; conheci lugares lindos e outros nem tanto; caminhei (e ainda caminho) quilômetros para visitar um enfermo ou ir à igreja; subi montanhas para orar pela cidade; aprendi a observar um nascer e um pôr do sol sem sair do lugar; melhorei muitos dos meus dons; mudei meus hábitos; chorei quando a saudade bateu; gritei quando eu queria ser entendida e não podia; vivi experiências inimagináveis e entendi que o amor não tem raça, credo ou nome. Isso e tantas outras pequenas coisas que são impossíveis de escrever em algumas linhas, caracterizam meu ano de 2017.

Mas de tudo, o que realmente aprendi foi o valor do ser humano para Deus. Como pode um ser que muitas vezes nem sequer O olha e que não faz nem questão de saber quem Ele é merecer tanto cuidado e atenção? Fico impressionada ao ver como o Pai cuida do ser caído que Ele amorosamente carrega nos braços e chama de filho. Posso dizer que minha vida mudou completamente e atrevo-me a dizer que encontrei o AMOR e aproveitando as reflexões de final de ano pergunto-me se eu conseguirei voltar à minha realidade!

O mês de dezembro foi bem cansativo não só pelo excesso de atividades, mas também pela estação (Harmattan), que além de seca levanta muita poeira. É semelhante ao clima do deserto, calor de dia e “frio” à noite e para quem não está acostumado, o corpo sofre muito com isso. Mas para honra e glória do Senhor, eu não fiquei doente e tudo terminou bem. Diferentemente do que eu estava acostumada com as festas de final de ano, aqui não teve nada de especial, apenas um dia comum. Uma ou outra igreja fizeram algo, mas nada que o povo aderisse (chega a ser bizarro). Porém esse mês me trouxe duas experiências que gostaria de compartilhar com você.

A primeira delas é a visita à uma das ilhas de Ganvie que fica ao sul de Benim e sobre o maior lago do país, Nokoué. Devido as áreas aterradas serem bem fragmentadas e distantes umas das outras, todas as atividades precisam de pirogues (barcos), seja desde ir à escola, como fazer compras, para tudo é necessário o uso dos pirogues. São aproximadamente 30.000 habitantes de língua tofinu e mais de 30 religiões (segundo o guia turístico), sendo a mais forte delas, o Vodu. Eles são um povo bem diferente e facilmente reconhecidos pelo excesso de cicatrizes pelo corpo, resultado de seus sacrifícios “diários”. Há uma pequena igreja Adventista sobre o lago que sofre grandes desafios para avançar com o trabalho. Embora a visita não durou muito, foi algo bem marcante e com certeza uma chuva de novos conhecimentos a minha mente.

A segunda foi uma viagem a Boukoumbé, bem na divisa com Togo. Depois de 10 meses em Benim, finalmente eu pude conhecer a “base” do povo Otammari e com certeza essa é uma experiência que levarei até os céus! Suas casas típicas, conhecidas como Tatas, contam com os fetiches logo na entrada, pois segundo a cultura isso traz proteção. Essas grandes “pedras” construídas à frente dos Tatas com várias menores a sua volta (veja nas fotos) representam os ancestrais rodeados de suas famílias (todos que já morreram). Os Tatas não têm luz e a água vem de um poço que pode estar a quilômetros de distância e devido a região ser repleta de árvores de Baobás, encontramos diversas iguarias feita deste fruto. Estive lá do dia 26 ao 31 para um treinamento de liderança com os jovens da IASD. A igreja é formada, basicamente, por uma família de aproximadamente 25 pessoas. Embora pequena é muito animada e fervorosa, porém devido as muitas dificuldades (desde materiais à evangelizar) eles não recebem muitas informações para evoluírem em seus trabalhos. Depois do treinamento os jovens ficaram muito animados para começar algo como o clube de desbravadores, pois segundo eles essa será uma grande oportunidade de começar a espalhar a mensagem e firmar a presença Adventista no local.

Em 2018 estarei apoiando pessoalmente esse vilarejo e pela graça de Deus avançaremos na pregação do evangelho. Mais uma vez agradeço a você pelo apoio e confiança brindado a mim durante o ano de 2017. Não sou digna de todas as bênçãos que o Senhor tem me dado e peço apenas que Ele continue me usando, ainda que pecadora e imperfeita, para levar a sua mensagem a todos que precisam conhecê-Lo. Que o senhor o/a abençoe grandemente e que as bênçãos dEle em sua vida sejam cada vez mais visíveis.
Shalom!

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações…ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei com vocês, até o fim dos tempos.” – Mateus 28:19-20

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